Vida sexual saudável é possível em qualquer idade

Entrevista concedida ao Jornal de Hoje, pela psicóloga e sexóloga Maria Lúcia Pinheiro, publicada em 15 junho 2012:
Ter satisfação sexual depois dos 70 anos é possível? Ovos de codorna, remédios farmacêuticos, catuaba, ajudam a melhorar o desempenho sexual? Prazer sexual é coisa só para jovens? Especialistas no tema informam que os avanços da ciência e a prática de hábitos de vida saudável permitem manter o desejo e a vida sexual ativa mesmo na terceira idade. A dica é de, tanto para jovens quanto os casais de mais idade,  manutenção constante do diálogo durante a vida em comum.
O sexólogo João Benévolo Neto disse que mitos e preconceitos são as maiores causas de prejuízo ao desempenho sexual  70 anos. “Ter uma parceira interessante e interessada também ajuda” explicou o médico, acrescentando que já atendeu casos de o homem chegar e a afirmar que a mulher era frígida e depois perceber que o problema estava na relação do casal e não nela.
Segundo o sexólogo existem doenças que podem afetar o desempenho sexual como hipertensão, diabetes, artrites, dentre outras, mas com conversa com a parceira sexual, o homem pode ter ereção até o final da vida. “Claro que em menor quantidade que jovem”, explica. O preconceito sofrido por mulheres com mais de 60 anos, observa João Benévolo, é maior.
Apesar de ter se tornado popular, o uso de drogas vasoativas, com o Viagra, pode não garantir o efeito desejado no homem. “O homem não é uma máquina. Então busca remédios como estes achando que vai resolver tudo, mas se ele não tem interesse na mulher que está ao seu lado, isto não ajuda”, explica o sexólogo.
O médico explica que as possibilidades de ajuda à manutenção da vida sexual de homens e mulheres devem ser analisadas e escolhidas após a avaliação de profissionais. No caso da realização de cirurgias para a implantação de próteses, quando agressiva, pode gerar problemas de ereção e homem não mais praticar sexo.  João Benévolo insiste que os problemas de relacionamento entre casais afetam o desempenho tanto de homens quanto de mulheres, independente da idade. No caso da mulher, a falta de interesse sexual no parceiro podem significar dores e desconforto físico durante a relação e, consequentemente, a optar por suspender a prática sexual.
João Benévolo ressalta que crendices populares que garantem o aumento do apetite sexual a partir da ingestão de ovo de codorna, catuaba, tiborna, amendoim, caldo de mocotó, entre outros itens, tem apenas efeito psicológico, sem comprovação cientifica. Em relação à frase imortalizada por Luiz Gonzaga na qual afirma que “Certo mesmo é um ditado do povo: Pra cavalo véio O remédio é capim novo” o médico diz que, para alguns homens,  manter relacionamento com mulheres mais novas faz com que se sinta mais jovem, embora possa haver problemas, pois a mulher mais jovem tem outra cultura. “O homem mais velho sabe que a mulher mais nova gosta festas e folia, programas não muito atraentes para homens com idade mais avançada”.
Esta realidade não é restrita aos homens, tendo em vista que também há os casos de mulheres mais velhas que buscam parceiros mais jovens, pelas mesmas razoes. “Outro dia uma mulher chegou para mim e disse que não agüentava mais o namorado que tinha 22 anos e ela 43. Ele queria sexo todo dia e ela não estava agüentando”, revelou o sexólogo.
O fato é que não existem regras, porém o médico ressalta a necessidade de conscientização sobre o uso da camisinha, inclusive para casais na terceira idade. Neste caso, além da prevenção de doenças, a lubrificação da mulher, com a idade, diminui e como a camisinha é lubrificada facilita  a relação. “Se o amor acabou, o relacionamento já acabou e não há remédio para isto”, ressalta.

Fatores psicológicos
Os fatores psicológicos influenciam em todos os setores da vida social. A psicóloga e sexóloga Maria Lúcia Pinheiro explica que da mesma forma problemas como a depressão em consequência da perda de sentido da vida interfere no cotidiano das pessoas, também pode redução do desejo sexual, potência e possibilidade de sentir prazer. “Cada caso tem sua particularidade e é natural que a queda hormonal possa atrapalhar na sexualidade”.
Maria Lúcia ressalta que a mudança na cultura da sociedade extinguiu do nosso cotidiano a figura da vovó que fica na cadeira de balanço. “Principalmente entre 60 e 70 anos, elas hoje são de uma geração mais ativa, da liberalidade da mulher e para nós, muitas vezes, é difícil imaginar nossos avós fazendo sexo, mas é uma realidade”, diz a psicóloga.
Diferente do que pensa a maioria das pessoas, a mulher quando mais velha tem mais desejo sexual que o homem, o que em muitos casos a leva a procurar homens mais novos, revela Maria Lúcia, que concorda com a afirmação de João Benévolo sobre a necessidade de autoafirmação por parte de alguns que buscam parceiros mais jovens. “Envelhecer não é bom para ninguém, por isto homens muitas vezes procuram mulheres mais novas e mulheres procuram homens mais novos como tentativa de resgate da juventude. É possível viver e ser feliz ao lado de um parceiro mais novo, mas é preciso haver amor, só que boa parte dos casos envolve interesse financeiro ou a dificuldde de algum deles de saber envelhecer”, conta.
“O homem e a mulher se frustram igualmente por não poder fazer sexo. As campanhas que enfatizam que sexo é saúde gera uma grande expectativa que pode não se concretizar”, diz Maria Lúcia. Ela esclarece que este tipo de situação é causa da busca de idosos ao atendimento psicólogo.
A discussão sobre a sexualidade na terceira idade envolve diversos fatores, mas especialistas  concordam que discutir a relação pode evitar muitos problemas, desde que não seja na hora da relação. “É preciso prevenir situações constrangedoras e frustrantes tanto para o homem, quanto para a mulher. O casal precisa ter momentos para tudo, sem misturar os assuntos”, enfatiza Maria Lúcia Pinheiro.

Desafios
Enquanto para os homens de 18 a 25 anos, o mais importante é ter o maior número possível de relações, para o público que está na faixa dos 41 a 50 anos há uma preocupação maior acerca do desempenho sexual e da satisfação da parceira. Já para os que passaram dos 60, o primordial é manter uma relação de qualidade.
As barreiras para manter uma vida sexual ativa na terceira idade são maiores para as mulheres. Enquanto os homens com seus cabelos grisalhos ou brancos acabam apresentando mais charme para a sociedade, para a população feminina, porém, o padrão da beleza do corpo jovem é um empecilho para a saúde sexual da mulher madura e muitas delas buscam academias, tratamento de pele, pintura de cabelos, para parecer mais jovem e atraente.
Os desafios para os homens começam com a autocobrança do bom desempenho sexual, que pode se tornar um fator complicador e gerar um quadro de ansiedade que dificulta não só a ereção, mas na relação com um todo. É possível perceber que  homens e mulheres precisam enfrentar preconceitos e expectativas, suas e da sociedade, e a solução está no diálogo.

Fonte: Jornal de Hoje

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