O caso de Isabella – o caso de todos nós

Por Maria Lúcia Pinheiro


       A comoção social provocada pelo assassinato da menina Isabela foi intensa. As notícias na imprensa e as manifestações públicas revelam o poder mobilizador desta tragédia. Nos identificamos e lutamos por justiça com aquela família, conseguimos visualizar seus sentimentos, mesmo sem conhecê-los. A força bonita da natureza humana emerge em nossa capacidade de empatia. A morte daquela criança nos comove ao tocar nossas feridas infantis, nossos medos e vulnerabilidades.
      Todos fomos crianças como ela, mesmo que cada uma de nossas histórias seja única e diferente, nós já tivemos a idade de Isabella – tivemos medo por sermos frágeis e nos sentimos, muitas vezes, impotentes diante de problemas, brincamos e fantasiamos o mundo adulto, acreditamos em heróis, sonhamos com o futuro. Olhamos a menina e nos vemos refletidos nela, a criança alegre com sonhos e medos, frágil e vulnerável. E é muito provável que em nossas recordações esta época tenha sido um dos momentos mais caros e mais delicados que guardamos em nós. A criança que fomos ainda vive em nós, compõe o adulto que somos. E, quer ela esteja alegre ou triste, presa ou livre, é através dela que o sorriso de Isabela nos toca e nos comove.
      A família se transformou nas últimas décadas, ganhou novas configurações e novas estruturas. Ela já foi acusada, questionada e criticada, mas ainda representa o lugar de apoio, compreensão e segurança. As mudanças estruturais não a destituíram da sua função psicológica em oferecer referência, segurança e afinidade, quesitos que fazem parte das nossas primeiras necessidades. Portanto, temos medo da destruição da família, tememos perder nossas referências, nosso refúgio. E ver aquela família destroçada, sendo ambiente de insegurança, é assustador.
      O sentimento de justiça presente na condenação do júri, que representava a todos nós; a segurança da lei trazida pela sentença do juiz Maurício Fossen; e o conforto representado na figura do herói Francisco Cembranelli nos consola e dá esperanças. Mas precisamos ir além, questionar nossos valores e condutas na construção de nossas famílias. Não podemos desistir da luta diária em fazer de cada família um lar, um lugar de amor e segurança. O sentido de ética e de justiça deve estar presente no seio da família, não apenas nos júris a que podemos precisar recorrer.

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