Freud explica: Big Brother Brasil e a epidemia da projeção

por Maria Lúcia Pinheiro

Freud é famoso por explicar muitas coisas. Recorrerei aos seus ensinamentos para analisar a surpreendente lógica do Big Brother Brasil:

Mais do que o voyerismo que alimenta o desejo de espiar, o mecanismo de projeção parece alimentar a audiência do programa. A curiosidade sobre a vida alheia está relacionada a necessidade de nos vermos como parte de um todo, serve como uma verificação da normalidade de nossa individualidade secreta. O desejo de integração, de sermos aceitos.

Entretanto, vemos na TV, constantemente, ícones de perfeição: corpos sarados, rostos retocados, encontro de almas-gêmeas em amores eternos, separações sem sofrimento, superação e recomeço instantâneos, para citar apenas algumas das imagens inatingíveis que nos ensinam a desejar todos os dias. Então, não nos sentimos iguais, não cabemos no modelito, não atendemos às expectativas. E isso causa sofrimento, frustração, conflito. Inspira a luta implacável contra o tempo, contra a natureza e até contra a normalidade da vida!
O BBB oferece conforto: pessoas com algo comum a nós. Acordam assanhadas, escovam os dentes, falam errado, arrotam e até “soltam pum”! Com freqüência, pessoas bonitas sim, mas que as vemos sem maquiagem, mal-maquiadas, muitas vezes mal-vestidas, com celulite, espinha.

Essas imagens permitem a identificação e, através deste processo, podemos vivenciar vicariamente nossos desejos inconscientes. Projetamos naquelas figuras nossas características inaceitáveis, aquilo que imaturamente desejamos, o que não é politicamente correto. E damos o aval para o pior em nós. Legitimamos a agressividade, a falsidade, a manipulação, o preconceito, o egoísmo, o narcisismo.

Aparentemente, podemos ganhar com este deslocamento. Melhor na TV do que na vida. “É só um jogo”. Como a brincadeira de luta da criança, como a violência de vídeo-games e filmes. Mas, atenção! Essa não é uma brincadeira inofensiva. Esses jogos repercutem na sociedade, alimentam desejos, moldam comportamentos e formam opiniões.

Comentários

  1. Todos nós temos defeitos e qualidades. Por meio desses programas aprovamos ou reprovamos aquilo que talvez esteja alojado no interior do nosso ser, que faz parte de nossa personalidade e que, talvez por medo de sermos rechaçados pela sociedade, não tenhamos coragem de assumir. Realmente "é só um jogo", mas as marcas deixadas por esse tipo de programa no comportamento das pessoas são muito profundos. As vezes tenho medo dos efeitos que esses programas possam causar nas gerações que se formam... ou em mim mesmo...quero crer que realmente "é só um jogo"...mas sei que é bem mais do que parece ser.

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